Por Sergio Luiz Leite, Serginho
A eleição presidencial de 2026 ficará marcada por uma mudança expressiva entre os dois turnos. Depois de terminar a primeira votação com 45,16% dos votos válidos, atrás dos 47,03% de Flávio Bolsonaro, Lula foi reeleito com 64,2 milhões de votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Uma diferença de 4,4 milhões de votos decidiu a disputa. O comparecimento aumentou no segundo turno, acompanhado de uma intensa mobilização nas redes sociais, nas ruas e nas organizações da sociedade civil. A virada demonstrou que, mesmo diante do desencanto com a política, uma parcela decisiva da população reconheceu a importância de comparecer às urnas e impedir retrocessos.
Desde o início do segundo turno, a juventude participou de manifestações, iniciativas digitais e atividades de campanha. O movimento sindical também se mobilizou em torno das questões trabalhistas e sociais, especialmente a redução da jornada para 40 horas, o fim da escala 6×1, a valorização salarial e a negociação coletiva. Merece reconhecimento, igualmente, a participação de idosos e idosas que, muitas vezes enfrentando dificuldades de saúde e mobilidade, compareceram às urnas. Para uma geração que viveu a ditadura e acompanhou a redemocratização, o voto carrega também a memória de uma conquista histórica.
Encerrada a eleição, surge uma pergunta inevitável. Qual será o lugar dessa mobilização nos próximos quatro anos? A ampla coalizão eleitoral reuniu partidos e setores sociais com posições distintas, que continuarão apresentando demandas próprias ao governo. O novo Congresso, porém, terá uma composição ainda mais desfavorável às pautas trabalhistas e sociais. Enquanto a representação da esquerda permaneceu relativamente estável, a extrema-direita ampliou sua presença, sobretudo às custas da direita tradicional, estreitando o espaço para os acordos e negociações parlamentares que marcaram o mandato anterior.
Esse cenário recoloca a relação entre democracia representativa e participação popular no centro do debate. A atuação parlamentar e a negociação institucional são indispensáveis, mas não esgotam os mecanismos de participação democrática. Conferências, conselhos, sindicatos, movimento estudantil, movimentos sociais e organizações comunitárias podem contribuir para a formulação, o acompanhamento e a fiscalização das políticas públicas. O desafio é transformar a mobilização eleitoral em participação permanente nas decisões nacionais, ampliando a capacidade da sociedade de acompanhar e influenciar os rumos do governo.
O quarto governo Lula não pode repetir o erro de 2015, quando o governo Dilma sucumbiu à pressão do mercado financeiro e promoveu uma guinada fiscal que aprofundou a crise econômica e política. É preciso romper com as amarras fiscais e monetárias que restringem o crescimento, reduzir os juros que encarecem o crédito e agravam o endividamento das famílias, além de recuperar a capacidade de investimento do Estado. A Nova Indústria Brasil deve continuar impulsionando a industrialização e a soberania nacional, com investimentos estratégicos em terras raras, semicondutores, baterias, fertilizantes e medicamentos, assegurando a internalização tecnológica. Esse projeto de desenvolvimento deve caminhar junto à consolidação da conquista histórica da jornada de 40 horas e do fim da escala 6×1, à correção das demais faixas da tabela do Imposto de Renda e à valorização do trabalho.
A revisão da reforma trabalhista de 2017 constitui outra tarefa fundamental. O fortalecimento da negociação coletiva, a representatividade sindical e as condições de financiamento das entidades precisam ser examinados à luz das mudanças ocorridas no mercado de trabalho. Os sindicatos continuam desempenhando funções essenciais nas negociações salariais, na prevenção de conflitos, na defesa das condições de trabalho e na elaboração de políticas públicas. A recuperação de mecanismos de custeio estáveis, representativos e juridicamente sustentáveis integra esse debate, assim como a proteção dos trabalhadores de plataformas digitais e das novas formas de contratação.
Uma eleição define o governo, mas não encerra os conflitos e as escolhas que moldam a sociedade. O quarto mandato de Lula começará diante de um Congresso mais à direita e de uma população que demonstrou, nas urnas, a força de sua participação democrática. A mobilização do segundo turno recoloca uma questão fundamental para os próximos anos. Como ampliar a influência popular sobre as decisões econômicas e políticas para além das eleições? O desafio será construir instrumentos permanentes de participação social, capazes de aproximar as decisões do Estado das necessidades da população. A democracia se fortalece quando o povo participa não apenas da escolha de seus representantes, mas também dos rumos do país.
Sergio Luiz Leite, Serginho
Presidente da FEQUIMFAR e
Vice-presidente da Força Sindical





















